Durante mais de 20 anos, Gerry McGovern esteve no centro da JLR, com papel decisivo na construção da identidade visual de diversos modelos. Agora, essa fase está perto de terminar.
Em nota oficial, a JLR informou que o executivo deixará a função de chefe de design no fim de março, com o objetivo de abrir a própria empresa de consultoria em design.
O seu legado
Antes de chegar à JLR, Gerry McGovern passou pela British Leyland, onde participou do desenvolvimento do conceito MG EXE, do esportivo MGF e do primeiro Land Rover Freelander. Em 1999, ele se transferiu para a Ford e assumiu a responsabilidade pelos estúdios de design das marcas Lincoln e Mercury, montando equipes na Califórnia. Depois, ao retornar ao Reino Unido, criou uma consultoria criativa em Londres - antes de voltar à Land Rover, em 2004.
O nome de McGovern ficou ligado a veículos que ajudaram a definir o que a JLR é hoje. Sob sua liderança, a linha Land Rover (hoje separada nas marcas Defender, Discovery e Range Rover) ganhou escala com dois dos produtos mais bem-sucedidos: o Range Rover Evoque e o Velar. Esses modelos tiveram papel determinante para consolidar a marca como força dominante no segmento de SUVs premium.
Entre os trabalhos mais emblemáticos, está a reinvenção do Defender (agora uma marca independente). O modelo original saiu de linha em 2016, após 68 anos de produção, e voltou em 2019 com um novo desenho - supervisionado por McGovern - que reinterpretou o ícone para outro público e um posicionamento diferente.
O novo Defender rapidamente se firmou como referência entre os SUVs premium de grande porte e também como um dos principais motores comerciais da JLR.
O capítulo final de maior peso no seu período no comando é, ao mesmo tempo, o mais controverso: a reformulação da Jaguar para a era elétrica. Ele liderou a criação do protótipo Type 00, revelado em Miami em 2024, como base visual para “a nova Jaguar”.
A campanha de comunicação que antecedeu a apresentação provocou críticas imediatas. E o próprio reposicionamento estratégico da Jaguar como marca exclusivamente elétrica, em um momento em que concorrentes estão reduzindo o ímpeto de eletrificação total, vem sendo encarado com ceticismo pelo setor.
Uma saída abrupta
As informações sobre a saída de McGovern não chegam exatamente como surpresa. Em dezembro, a Autocar publicou que o chefe de design teria sido convidado a deixar o cargo e, segundo as mesmas fontes, teria sido escoltado para fora do prédio da empresa.
Na ocasião, a JLR se recusou a comentar, e a história nunca foi confirmada oficialmente. Por semanas, a companhia não esclareceu se McGovern seguia na mesma posição - uma indefinição que agora termina com o anúncio do encerramento de suas funções.
O afastamento aconteceu apenas uma semana depois de PB Balaji - ex-diretor financeiro da Tata Motors (o grupo indiano que controla a JLR) - assumir a liderança da fabricante britânica, substituindo o aposentado Adrian Mardell.
“A liderança criativa, a visão, a determinação e a paixão de Gerry deixaram um cunho indelével nas nossas marcas”, disse PB Balaji, diretor-executivo da JLR. “Gostaria de agradecer a Gerry pela significativa contribuição que ele deu à JLR e desejar-lhe muito sucesso no seu próximo capítulo criativo”, adicionou.
O que se segue?
Como indicado acima, McGovern deixará a JLR para montar a própria consultoria de design, voltando a uma realidade que já tinha vivido antes de retornar à Land Rover, em 2004. Ainda assim, a pergunta mais urgente não é o que ele fará daqui para a frente, mas quem vai ocupar o espaço que ele está prestes a abrir.
A Jaguar vive um período de suspensão. A marca interrompeu as vendas de automóveis para preparar a transição elétrica, e o primeiro modelo dessa nova fase (um sedã de alto desempenho desenhado por McGovern) deve ser apresentado ainda neste ano.
Gerry McGovern sai justamente antes de ver nas ruas a materialização de um de seus trabalhos mais polêmicos: “foi um grande privilégio trabalhar na JLR ao longo de duas décadas extraordinárias. A dedicação e paixão de milhares de pessoas tornaram estas marcas no que são hoje, e estou enormemente orgulhoso do que construímos juntos”, disse.
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