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Setor automotivo europeu: Pacote Automotivo da União Europeia, ACAP, 2035 e o “efeito Trump”

Carro elétrico branco futurista em exposição moderna com vidro panorâmico e turbina eólica ao fundo.

O setor automotivo europeu vive um dos momentos mais turbulentos de sua história recente. Entre novas obrigações ambientais e um tabuleiro geopolítico que muda rapidamente, lideranças da indústria apontam um ambiente de “pura desinformação”, que tem travado decisões de investimento e aumentado a incerteza entre consumidores.

Grande parte da discussão recente gira em torno do chamado “Pacote Automotivo” da União Europeia, apresentado em dezembro do ano passado. Embora tenha se espalhado a percepção de que haveria um possível afrouxamento nas metas de descarbonização, o quadro real é mais complexo.

Pacote Automotivo da União Europeia e a meta de 2035

Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, ao apresentar o balanço comercial do mercado automotivo português em 2025, reforça que a meta de 100% de veículos de zero emissões em 2035 segue, formalmente, em vigor.

Ainda assim, a Comissão Europeia incluiu uma nuance: as montadoras terão de assegurar uma redução de 90% nas emissões de CO₂ dos automóveis novos, podendo os 10% restantes ser compensados por mecanismos adicionais - como o uso de combustíveis sintéticos (e-fuels) ou a utilização de aço de baixa pegada de carbono produzido na União Europeia.

ACAP e Stellantis: percepção do mercado e críticas

Para Pedro Lazarino, vice-presidente da ACAP e diretor-geral da Stellantis em Portugal, o sinal recebido pelo mercado foi ambíguo. O executivo definiu a medida como “10% mais multa. Nada mudou. Criou-se a perceção de uma janela de oportunidade para vender carros de combustão para lá de 2035, mas sem alterar as metas de emissões. Uma coisa é incompatível com a outra”, argumenta.

O “efeito Trump”

Em paralelo, o cenário internacional vem redesenhando os equilíbrios do setor. Uma indústria que, por décadas, se apoiou em cadeias globais de valor e em fortes sinergias entre regiões começa agora a se fragmentar.

Na leitura de Lazarino, a vitória de Donald Trump nos EUA acelerou essa divisão. “Há hoje um mundo a duas velocidades. Se o desfecho eleitoral tivesse sido outro, talvez o mercado norte-americano estivesse a eletrificar-se ao mesmo ritmo que a Europa. Não foi o que aconteceu, e a Europa está cada vez mais isolada nesta trajetória”, afirma.

Na visão do dirigente, o setor deixa de operar como uma indústria verdadeiramente global. “Vamos ter centros de engenharia nos EUA focados no desenvolvimento de motores de combustão cada vez mais eficientes, enquanto a Europa aprofunda a aposta na eletrificação. As grandes sinergias globais no setor tendem a diminuir”, conclui.

Novos mercados

Diante do arrefecimento do mercado chinês e do protecionismo norte-americano, a Europa busca alternativas em novas geografias, com destaque para a América do Sul (Mercosul) e a Índia.

Mesmo assim, representantes do setor em Portugal demonstram cautela. Embora esses mercados possam ampliar a base de clientes, eles não respondem ao desafio estrutural da transição energética. “Esses mercados não estão numa trajetória clara de eletrificação”, alerta o diretor-geral da Stellantis em Portugal.

Além disso, essa reconfiguração eleva a pressão sobre a Europa para assegurar maior autonomia estratégica - do acesso a matérias-primas críticas à fabricação de baterias. “É preciso continuar a investir, e investir bem”, enfatiza.

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