Do “tudo elétrico” ao choque com a rua
Relembrando o roteiro que se repetiu nos últimos anos: o futuro do automóvel seria 100% elétrico; a evolução dos motores a combustão estaria com os dias contados; em 2035 todo mundo estaria dirigindo carro elétrico; e quem não colocasse todas as fichas nos elétricos ficaria para trás.
Muitas montadoras embarcaram nessa narrativa - algumas por convicção, outras empurradas por regulações - e a seta parecia apontar só para um lado: elétricos, elétricos, elétricos. Especialmente na Europa, onde as projeções de 2020 sugeriam que, a esta altura, já deveríamos estar num equilíbrio 50/50 entre combustão e elétricos. Não estamos. E estamos ainda mais longe dos 80% de participação dos elétricos projetados para 2030.
Voltando para 2026, surge um quadro bem diferente. Sim: o carro elétrico não serve para todo mundo. Há quem, sobretudo em Bruxelas, pareça descobrir agora que motoristas não têm todos as mesmas preferências - nem as mesmas necessidades.
E, se alguém ficou surpreso, vem disfarçando bem e evitando reconhecer o erro, porque as metas para 2035 seguem apontando para uma redução de 90%(!) nas emissões. O que sobra, então: supercarros e carros de luxo?!
Projeções, metas e o desalinhamento com o consumidor
O ponto central é que o relógio do consumidor não anda no mesmo ritmo das ambições de uma vanguarda “esclarecida” que circula por Bruxelas. Dá para aceitar que o destino é elétrico - e, para quem consegue, é claramente uma ótima alternativa; eu mesmo tenho dois EVs -, mas fica cada vez mais evidente que a adoção não segue uma agenda única.
A realidade chinesa e a teimosia da Toyota
Não dá para cravar como isso termina, mas a China já escolheu o caminho. O plano chinês para o setor automotivo vai até 2040, cabe numa folha A4 e coloca os híbridos no centro da estratégia: veículos leves, comerciais e pesados. E não é só papel: é execução. Nos últimos 12 meses, apareceu uma enxurrada de novos motores híbridos.
Em outras palavras, até o mercado que domina a cadeia de valor dos carros elétricos - das terras raras à fabricação de baterias - precisou se curvar ao pivô final de qualquer mercado: a lei da oferta e da procura.
Na Europa, a sensação é de desnorteio. A Volkswagen, um gigante do setor, só agora prepara o lançamento do primeiro motor híbrido de sua longa história. E várias outras marcas que haviam apostado numa eletrificação total estão, neste momento, revisando escolhas.
Durante todo esse período, houve uma marca - na verdade, duas, mas já chegamos lá - que manteve o rumo sem hesitar. A Toyota. Sem histeria, seguiu evoluindo seus sistemas híbridos. Inclusive, uma nova geração de híbridos já está a caminho, com chegada prevista para 2027.
Isso significa falta de fé nos elétricos? Não exatamente. O que existe é desconfiança de soluções únicas para um conjunto enorme de necessidades diferentes. Tentem tirar os Land Cruiser dos “capacetes azuis” ou as Hilux dos “terroristas” e veremos um curioso alinhamento de posições.
E vale lembrar: mesmo nos elétricos - longe da miopia europeia - a Toyota não vai mal… na China. Faz pouco tempo, a marca lançou um sedã com mais de 5 metros de comprimento, o bZ7, por cerca de 23 mil euros - 10 mil euros a menos do que um Tesla Model 3. Na primeira semana, passou de 30 mil pedidos. Foi o bastante, junto com os híbridos, para colocar a Toyota no TOP 3 de vendas na China.
Também existem bons exemplos dentro da própria Europa. A Renault tem sido a montadora europeia que mais vem apostando em motores híbridos. E, assim como a Toyota com a GAC, a Renault também buscou um parceiro na China: a Geely. Dessa parceria nasceu a Horse Powertrain, focada no desenvolvimento de motores a combustão.
Entre a ideologia e a realidade
Enquanto esse cenário se desenha, a Europa continua insistindo em uma resposta única. Pouca gente duvida de que o futuro seja elétrico - e, para quem pode, é sem dúvida a melhor escolha -, mas a cada dia fica mais claro que a adoção real não acompanha o calendário político.
Na Toyota, por vender para o mundo inteiro, não há dependência de amarras políticas ou ideológicas de ninguém. E quem quiser continuar relevante vai precisar fazer algo parecido: observar com atenção o que os consumidores de fato estão pedindo.
Ou, ainda, aceitar correr alguns riscos - como no caso do hidrogênio. Como sabemos, a adoção dessa tecnologia vem piorando. Como minha esposa faz questão de me lembrar vezes demais, não dá para estar certo o tempo todo…
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