Desde o começo, sempre tratamos o Renault Clio V6 como uma espécie de tributo ao R5 Turbo, o “monstro” dos ralis nos anos 80 - e, de fato, ele é isso. Só que poucos imaginariam que, na origem dessa excentricidade gloriosa sobre rodas, esteve uma ideia ainda mais improvável: um Twingo com motor de Ferrari.
A noção de um tipo de super-Twingo rondava a cabeça do designer alemão Axel Breun, então responsável pelos carros-conceito e pela divisão esportiva da Renault, após ter vindo da Volkswagen.
Breun era apaixonado pelo Twingo e via no modelo algo muito moderno, mas considerava o motor original… decepcionante.
Na visão dele, o Renault Twingo precisava de um “coração” diferente - algo novo e mais empolgante. E essa ideia não o largou, virando um projeto pessoal que ele insistia em perseguir.
Para achar um candidato, Breun não demorou. O motor 1,0 l, de três cilindros, multiválvulas e turbo do Daihatsu Charade GTti, avançado para a época, parecia o “coração” ideal para dar vida ao Twingo. Só que a complexidade do trabalho acabou fazendo com que ele abandonasse esse caminho.
Foi aí que esse projeto pessoal de Axel Breun, de dar mais “vitamina” ao Twingo, parece ter virado para o território… da insanidade: e se, em vez de tentar colocar outro motor no Twingo, ele tentasse encaixar a “carcaça” do Twingo em outro chassi?
A proposta não seria inédita, mas, para adaptar a carroceria externa do Twingo a outro chassi sem dor de cabeça, Breun concluiu que era essencial encontrar um modelo com entre-eixos praticamente idêntico. E, como ele descobriu, os 2,345 m de entre-eixos do Twingo estavam a apenas 0,5 cm dos 2,35 m do Ferrari 308.
Seria possível esta ideia “de doidos” funcionar?
O próprio Axel Breun reconhecia o quanto a ideia era insana, mas fez desenhos e sobreposições do perfil dos dois carros e… sim, parecia bater perfeitamente. Depois, comprou dois modelos em escala - um do Twingo e outro do 308 - e, ao desmontá-los, apoiou a carroceria do Twingo sobre o chassi do 308. Mais uma vez, tudo parecia se encaixar sem esforço.
Mesmo levando em conta que as bitolas do Ferrari são mais largas do que as do Renault (há uma diferença de 10 cm de largura entre os dois), extensões nos para-lamas resolveriam esse ponto com relativa facilidade.
Breun chegou a conseguir uma “carcaça” de Twingo na oficina de protótipos da Renault, mas o orçamento dele não foi suficiente para comprar um Ferrari 308 acidentado.
Com isso, o projeto parece ter “morrido” ali: virou basicamente um desenho guardado atrás da mesa de Axel Breun que, apesar de ter muitos admiradores - incluindo o então chefe de design da Renault, Patrick Le Quément -, não encontrava um caminho viável para sair do papel.
Clio precisa de imagem mais forte
Alguns anos depois, a estreia da Renault Sport e do seu primeiro carro de rua, o Spider, acabou reabrindo a porta para a ideia do super-Twingo - agora com apoio da própria Renault, mas sem o motor Ferrari.
O princípio seguia o mesmo. A proposta era colocar a carroceria do Twingo sobre outro chassi, desta vez o do novo Spider, que tinha o mesmo entre-eixos (2,343 m), e colocar no cofre do motor o… V10 dos Williams-Renault de Fórmula 1, como foi feito na lunática Renault Espace F1. Embora o projeto tenha avançado a ponto de existirem modelos em escala 1:5, ele também acabaria abandonado.
Ainda assim, a ideia em si não foi descartada. Em 1998, com a apresentação da segunda geração do Clio (projeto X65), surgiu a necessidade de fortalecer a imagem do modelo com algo mais esportivo e de impacto - e a opção escolhida foi justamente a de colocar uma “carcaça”, agora do Clio, sobre outro chassi.
No início, o projeto foi chamado de Clio Maxi - o nome que acabaria sendo usado nos Clio de rali -, e a meta era clara: prestar homenagem ao R5 Turbo.
Axel Breun, porém, queria ir além do que havia sido feito no R5 Turbo original e sugeriu algo ainda mais radical do que o Clio V6 que chegaria à produção.
A proposta dele previa uma carroceria em materiais compósitos sobre o chassi do Spider, com portas e para-lamas alargados para se integrarem melhor ao conjunto e com uma abertura exótica do tipo “borboleta”. E, atrás dos dois ocupantes, desde o começo a escolha foi o V6 de 3,0 l.
Essa abordagem não avançou, mas o projeto de um super-Clio, sim. O Clio V6 acabou derivando diretamente da base dos demais Clio II, embora profundamente retrabalhada para acomodar o V6 em posição traseira.
As portas adotaram abertura convencional, mas o visual largo e musculoso do Clio V6 manteve as linhas originais imaginadas por Axel Breun - linhas que ele já havia experimentado antes no super-Twingo.
História com final feliz
Quem diria que, nas raízes do Renault Clio V6, existiria a ideia “maluca” de um designer em “casar” a carroceria de um Twingo com o chassi de um Ferrari 308?
O Clio V6 chegaria ao mercado em 2000, produzido pela Tom Walkinshaw Racing (TWR)… na Suécia - já a segunda série, lançada em 2003, seria montada em Dieppe, nas instalações da Alpine. E, até hoje, segue admirado… e temido, visto como um dos modelos mais especiais já feitos pela marca do losango.
O tempo em que Axel Breun amadureceu essa ideia insana - e seu envolvimento direto no desenvolvimento do Clio V6 - também seria recompensado. Ele pediu que, se fosse possível, ficasse com uma das unidades de desenvolvimento depois do lançamento comercial do Clio V6 e, algum tempo depois, o pedido foi atendido.
A unidade n.º 1 produzida pela TWR (que vocês podem ver na publicação do Instagram acima) é dele.
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