Durante muito tempo, nenhum homem “de sangue quente” seria apanhado com vida na versão então vigente do VW Beetle Cabrio. Tão masculino quanto uma minissaia e com menos testosterona do que uma gatinha, ele parecia o equivalente automotivo de uma bolsa cheia de maquiagem - e nem era uma bolsa particularmente boa.
Por que o VW Beetle Cabrio antigo não convencia
A proposta original - um conversível simples e divertido, uma espécie de Porsche Speedster mais em conta e mais altinho para as massas - evaporou assim que vimos e guiamos o carro pela primeira vez. Ele era alto demais e vinha em tons pastel que não pediam para ser levado a sério; por dentro, havia um ambiente apertado, com direito a “vasinho”, que mal comportava duas pessoas de tamanho normal. Ao volante, era sem graça: subesterço quase imediato e rolagem de carroçaria num nível que só um marinheiro aceitaria.
Nada disso incomodava o público que o comprava. Em praticamente todas as versões (tirando as mais básicas), a capota sobe e desce eletricamente; é um carro muito fácil de conviver e, por ser VW, dá para comprar e fazer manutenção com facilidade (ainda que não seja barato). A Volkswagen vendia muitos, e a desvalorização era baixíssima - portanto, gostemos ou não, o pacote funcionava e não havia um motivo forte para mudar tudo.
A menos que, como a própria gestão da VW, você decida um dia que quer vender o Beetle Cabrio para homens também. Aí, não bastaria um retoque: seria preciso refazer o carro de ponta a ponta para reduzir o “efeito batom” e aumentar o apelo masculino. Ele teria de ficar mais baixo, mais comprido e mais largo para parecer mais atlético. O interior teria de ficar no nível de um Golf - ou melhor -, talvez até com um nome de versão mais “macho” para ajudar na imagem. E, além disso, precisaria acelerar, frear e fazer curvas muito melhor do que antes.
O que a Volkswagen mudou no VW Beetle Cabrio 2013
Foi exatamente esse o caminho tomado no ano-modelo 2013. Uma parte considerável do ganho do novo Cabrio vem do recém-lançado Golf MkVII, que fornece os motores e os outros componentes mecânicos que você espera nunca ver. Com o mundo inteiro elogiando o novo “carro do povo”, ele virou um doador ideal para o Beetle - e isso aparece desde o primeiro quilômetro: o Beetle 2013 contorna melhor e é superior em dinâmica a tudo o que o modelo anterior oferecia.
Antes de falar do que se mexe, porém, é preciso encarar o que se vê. Se o visual não resolvesse, o carro poderia até ter mecânica de Lamborghini que, mesmo assim, não convenceria o público masculino. A boa notícia é que, ao deixar o carro mais baixo e mais largo, esticando e baixando a linha do teto para imitar o Beetle original de 1949 e colocando um spoiler em todas as versões, os designers da VW conseguiram tirar o modelo do “100% feminino” e colocá-lo bem no centro, equilibrado entre os dois sexos.
Interior do VW Beetle Cabrio 2013 e praticidade
Essa guinada mais masculina continua no habitáculo. Saem os mostradores “conceituais” sem graça, ao estilo Mini, e os porta-flores; entram um painel e uma consola central claros, diretos e fáceis de ler. Como convém a um cabrio de verdade, há um som grande - incluindo uma opção ainda maior assinada pela Fender - e também existe uma alternativa de acabamento no painel com madeira em desenho “starburst”, lembrando uma Stratocaster, que, contrariando todos os testes de bom gosto, acaba ficando muito legal.
Os bancos dianteiros cumprem bem o papel. Já os bancos traseiros, que rebatem para permitir levar mais do que algumas sacolas de compras no porta-malas, agora passaram a ser aceitáveis para crianças.
Ainda assim, nem tudo é perfeito. Os plásticos não são de alto nível, a faixa de tecido na porta (no lugar de um porta-objetos de verdade) parece frágil, e os pedais têm um desalinhamento quase chocante, ao estilo Alfa Romeo (já voltamos a isso). Mesmo com esses pontos, é um salto enorme em relação ao modelo anterior.
Chassis, motores e condução
O conjunto de chassi e trem de força também melhorou. Como no Golf, há uma gama ampla: do pequeno TSI 1,2 litro até o TSI 2,0 litros de 200 bhp (cerca de 203 cv) “emprestado” do GTI. No lançamento, as duas opções que pudemos experimentar foram o 2.0 Turbo, no topo da linha, e o diesel 2.0 TDI.
Embora o carro a gasolina seja muito mais divertido - bons bancos, desempenho suficientemente rápido para entreter, rodar confortável e comportamento bem resolvido -, o foco aqui é o diesel, porque ele deve ser o mais vendido.
E ele não decepciona. Com o câmbio DSG, o conjunto parece muito bem calibrado: não falta nem sobra potência, tem agilidade suficiente para agradar e faz curvas com estabilidade, sem causar enjoo. Quase não há tremor de carroçaria, mesmo em pisos muito mal remendados; e, com o defletor de vento instalado, praticamente não existe turbulência de ar no interior.
A capota desaparece em 9.5 segundos, sem alavancas para destravar, e volta ao lugar em 11.5 segundos a velocidades de até 50 km/h (equivalentes a 31 milhas por hora). Não é algo extraordinário em nenhum aspeto, mas também não dá sinais de ser mal feito.
Problemas encontrados no teste
Num dia de teste bem “britânico”, com neblina e chuva, surgiram dois pontos fracos. O primeiro: quando a capota fica recolhida, ela acumula água - muita água. E essa água cai dentro do carro em dois jatos fortes, a ponto de encharcar o colo, assim que você levanta a capota. Isso é ruim.
O segundo problema é o desalinhamento dos pedais na versão manual. Ele existe também nos carros com dois pedais, claro, mas nos manuais fica muito mais evidente e irritante, porque há menos espaço. O primeiro inconveniente dá para contornar escolhendo bem quando e onde abrir/fechar a capota. Já para resolver o segundo, a única saída é optar pelo DSG.
E é exatamente isso que a VW espera: que, se você escolher cores e opcionais com cuidado - e estiver confortável com a própria masculinidade -, agora vai achar perfeitamente aceitável fazer isso, mesmo sendo homem.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário